História do Carnaval - Parte 04


CARNAVAL CONTEMPORÂNEO

( Do século XVIII ao século XX )

O Carnaval Contemporâneo começa a definir seu modelo com o surgimento da Industrialização no século XVIII, ganhando identidade própria, após o término da segunda Guerra Mundial, quando ocorreram na Terra, importantes, mudanças de ordem filosófica, moral e estética.

O QUARTO CENTRO DE EXCELÊNCIA DO CARNAVAL .

O quarto Centro de Excelência do Carnaval se concentra no novo mundo, em especial, nos países onde as culturas negras mais atuaram: Brasil: Argentina, Colômbia e Trinidad Tobaco.

O epicentro do modelo se localiza no Brasil, especialmente, na cidade do Rio de Janeiro onde se realiza, o que se pode considerar o maior espetáculo audio visual do mundo, o desfile das Escolas de samba do Grupo Especial. Não é sem motivo que o Estádio, ícone do Carnaval Contemporâneo passou a ser conhecido internacionalmente como Sambódromo.

Características

Nos tempos contemporâneos, carnaval deixa de ser uma grande festa em que as principais ruas e praças se convertiam em palcos e a Cidade se tornava um teatro imenso, sem paredes, nas quais os habitantes eram ao mesmo tempo atores e espectadores (modelo clássico) para se enquadrar na velocidade do mundo pós-moderno.
Paul Virilio, arquiteto, urbanista, filósofo, escreveu em 1993 - Velocidade e Política -; Ensaios sobre dramologia e arte do motor ( Estação Liberdade ), nos dá uma visão das mais originais, do mundo pós-moderno. Hoje, movimento e velocidade, espaço e tempo, aceleração e desaceleração regulam as práticas políticas, sociais, artísticas e culturais.
O carnaval não podia deixar de sofrer a influência da “dromologia” ( do grego dromos, corrida e logos, ciência) por isso se transformou em paradas ( desfiles, espetáculos).

O carnaval Contemporâneo encontra sua máxima expressão no ato do desfile, (espetáculo) atingindo o que Maffesoli diz: “Epifanizar as coisas, paramentá-las oferecê-las como espetáculo é, de alguma forma, celebrar o corpo social, por meio destes pedaços de matérias, que assim se tornam elementos da cultura, que no melhor sentido do termo, permite, funda e conforta, o estar junto social”.

Ao penetrar no mundo pós-moderno o carnaval se enquadra nas teorias do mesmo citado Michel Maffesoli: “a função essencial que pode ser atribuída à imagem, em nossos dias, é a que conduz ao sagrado. É de fato impressionante ver que, fora de qualquer doutrina, e sem organização, existe uma fé sem dogma ou antes, uma série de fés sem dogma” expressando de melhor forma o reencantamento do mundo que afeta, de diversas maneiras, todos os observadores sociais. Falei, por meu turno, de religiosidade que contamina, de um em um, toda a vida social. De fato o que está em causa não é mais o domínio religioso, STRICTO SENSO, mais muitas outras religiões “por analogia” que poderão ser o esporte, os concertos musicais, as reuniões patrióticas ou mesmo as ocasiões de consumo. Ora, em cada um destes casos, e poder-se-ia multiplicar indefinidamente a lista, a religião é feita em torno de imagens que se partilham com outros. Pode-se tratar de uma imagem real, de uma imagem material ou mesmo de uma idéia em torno da qual se comunga, isso pouco importa. Em compensação, interesso-me aqui pelo fato de que essa cosa mentali possui uma eficácia que não se pode negar.
Ao comentar Durkheim, Serge Moscovici fala até mesmo de uma ressurreição da imago que vai agir em profundidade sobre o corpo social. Este poderia ser o emblema ou símbolo convencional, um signo em princípio banal, um objeto trivial, uma palavra anódina que, subitamente ou por ocasião de um rito particular, transformam-se em totens “imagens de coisas sagradas” (Durkheim). Porém em um movimento de reversibilidade, subitamente essas imagens readquirem vida, e regeneram o corpo social: sociedade ou pequeno conjunto tribal que lhes servem de suporte. A bandeira “farrapo multicor” vai suscitar, naquele momento, um imenso sentimento coletivo. Aquela palavra, bastante comum, vai cumprir uma função signo, tornando-se meio de reconhecimento ou servindo de grito de união. Em cada um destes casos reforça o vínculo social, que assim readquire o seu vigor original”

O carnaval se enquadra nessa visão geral do mundo pós-moderno que segundo Maffesoli renasce hoje em dia com a “barroquização do mundo”.

Ao analisar o descaso da intelligentzia pelo estudo do carnaval na cultura contemporânea, o professor Dr. Lamartine P. da Costa conclui: “ isso por que os tempos pós-modernos - hoje tipificando tanto sociedades afluentes como pobres - privilegiam o lúdico, a ironia e os sentimentos como rejeição à ordem nacional, ora em fase do esgotamento de suas possibilidades emancipadoras”. Este pressuposto é examinado, por exemplo por Douglas Kellner escrevendo para o público acadêmico dos (EEUU) (país de tradição carnavalesca apenas na cidade de New Orleans) sobre a evolução das idéias de Jean Baudrillard. Não confirmando o mérito do pessimismo radical do pensador francês quanto as conseqüências do fim da modernidade, Kellner insiste na expressão “The post-modern carnival” ao sintetizar as características de perdas das referências centrais do pensamento ocidental e da decadência da representação, quer nas artes como nas ciências sociais (Kellner D. Jean Baudrillard - Fron Marxism to post modernison and Beyond” Stanfort University Press Stanfond, 1989 - pp 91- 121).

De fato, o carnaval pós-moderno não é apenas uma figura de estilo no texto em exame, já que se pervertendo o sentido clássico de representação, cresce a reversão de papéis sociais e a autoreferenciação dos indivíduos. Além disso, aumenta a suspeita sobre os métodos de geração do conhecimento científico que traduziriam sobretudo o interesse narcisístico dos pesquisadores sociais. Ou seja: nada mais típico de carnavalização do que a inversão dos atores sociais e o tratamento irônico do uso do poder pela autoridade.

Diz, então Kellner, conclusivamente ao ligar as ideais de Baudrillard do carnaval:
“Como Nietzsche, ele quer extrais valores de ordem das aparências, sem apelos ao mundo sobrenatural ou à realidade profunda. Como Nietzsche ele apela para os valores aristocráticos, privilegiando o desprendimento, a competição, a sedução, o ritual e outros. Contudo, diferenças significantes de Nietzsche emergem. Baudrillard., assim sendo, diverge do vitalismo e da celebração da vida e do corpo gerando alma atmosfera de melancolia (Kellner, D. -”Jean Baudrillard - From Marxisen to Pos Moderniom and Beyond” Slanfort University Presse, Stan form, 1989 pp’ 120’).

Nestas palavras reside mais uma versão da chamada “controvérsia do pós-moderno” envolvendo a ambivalência da cultura de nossos dias - mediática na sua essência que se mostra tanto repressora como emancipadora. Por isso, certos cientistas sociais e filósofos contemporâneos, como Habermas, defendem a manutenção dos valores universais garantidores da liberdade, ao passo que outros, destacando-se Lyotard, inclinam-se para o relativismo, este sim a expressão real da liberdade em meio ao domínio da mídia e dos computadores.

Enquanto a disputa se prolonga, o que permanece constante é a mudança cultural que independente de ser pós-moderna ou pertencer a uma pretensa modernidade tardia, exibe uma inequívoca ludicidade, uma preocupante descontinuidades fragmentária dos fatos sociais e uma temerosa tribalização dos grupos humanos, diante de um mínimo de ordem social necessária. Juízos de valor a parte, o que está em jogo mais uma vez na história é a sombra de Dionisos sobre Apolo, isto é, sentimentos e paixões estão sendo revigorados diante da ordem societária agora com uma cumplicidade inesperada e inédita: a da tecnologia.
De resto como diz Maffesoli sociólogo francês que se insere na corrente otimista da pós-modernidade, as sociedades ao tomarem conhecimentos de si derivam para uma “desordem de paixões” e o sentido orgiástico penetra em todas as instâncias da vida social. Nestes termos a estética dá o estilo das relações sociais, inclusive regulando atitudes éticas. Em última instância trata-se da carnavalização da vida cotidiana em que o carnaval, propriamente dito, generaliza-se por secularização.
O que persiste como resquício portanto, é a celebração cristã do carnaval, que na verdade consiste numa herança pagã em que se festejavam deuses (Dionisos entre os Gregos e Saturno e Bacco na antiga Roma). Em outras palavras estamos hoje progredindo para uma cultura carnavalesca em que o ritual dissolve-se hábito. Evidencia-se isso especialmente no Brasil dos últimos anos, onde o carnaval tem se modificado em diversos meses do ano, abandonando seu período fixo na quaresma”.

A ligação da teoria de Maffesoli com o carnaval é testemunhada pelo professor Dr. Luis Felipe Baeta Neves: “Michel Maffesoli, em seu último livro “A Transfiguração do Político” diz: “entendo estética, no sentido mais próximo de sua etiomologia, de sua origem, o fato de experimentar emoções, sentimentos, paixões comuns e isto nos domínios diversos da vida social”. “É importante ressaltar isso, porque esta definição não tem nada a ver com a definição corrente de estética: o fato de as pessoas poderem experimentar, em algumas circunstâncias uma paixão que as una, seja no carnaval seja em outras situações, isso não acarreta necessariamente uma permanência estética. Como estética Maffesoliana pode variar e deve variar, e como ela fala da comunhão social das pessoas, e esta comunhão pode ocupar outros continentes, seriam importante articular isto com o fenômeno do carnaval e da estética da Escola de Samba.
Para a perspectiva Maffesoliana, a estética não funde uma moral no sentido da moralidade, de fixo, mas no sentido de formação codificada de sentimentos comuns de um grupo em uma determinada circunstância. Em geral, a sociologia se ocupa pouco disto. Maffesoli expressamente se preocupa em mostrar a sociedade nos momentos em que ela se une, momentos aparentemente efêmeros, como os dos jogos da liturgia, da festa, de orgia”.

O Carnaval no Mundo

Veneza e Roma

Muitos historiadores afirmam que o verdadeiro carnaval nasceu na Itália com bacanais, lupercais e saturais de Roma. A própria origem da palavra é italiana. Conta-se que, ao tempo em que a Igreja ainda não havia adotado integralmente o carnaval, no século XV, o papa Paulo II, entediado com a única beleza parada que lhe chamava a atenção - a visão permanente da Via-láctea que aparecia em frente à sua residência oficial, estimulou o carnaval.

O carnaval veneziano foi um dos mais alegres e fortes do mundo. Bailes e festas se desenvolviam durante uma semana nas praças, ruas, e, sobretudo, nos diversos canais, repletos de Gôndolas enfeitadas e com sofisticadas decorações criadas especialmente para a festa. Teatros e casas as mais diversas, abertas durante 24 horas, atraiam os mais variados tipos de espectadores. A história registra que o primeiro carnaval veneziano ocorreu em 1420 para comemorar a vitória de Veneza sobre Aquiléia : a realização de um desfile satirizando os derrotados.

No início do século XVIII, incorporou-se à festa carnavalesca a tradição do corso de Gôndolas. As mais tradicionais famílias participavam do alegre cortejo que seguia o grande canal, ao som de trombetas, até o jardim zoológico da cidade, onde se realizava um grande carnaval.

Quando Veneza foi anexada à Áustria, o carnaval enfraqueceu. Mas quando se deu a libertação do domínio austríaco em 1866, foi realizado maior carnaval de todos os tempos, voltando esses festejos a ter o mesmo brilho e entusiasmo de sempre. Posteriormente o carnaval de Veneza voltou a se enfraquecer a ponto de quase desaparecer.

O mesmo aconteceu com a cidade de Roma que também outrora possuía um dos mais fortes carnavais da Europa.

Atualmente, as cidades Italianas que possuem maiores carnavais são Viareggio, Cento, Putignano e Verres com desfiles de carros alegóricos e alegres brincadeiras (1997).

Nice

O carnaval de Nice é um dos mais conhecidos e animados carnavais europeus, e tem seus pontos de maior atenção nos desfiles de corsos, nas batalhas de confete e nos espetáculos de marionetes e de teatro de rua. O corso, que apareceu pela primeira vez, em 1882, é formado por um grande cortejo, onde se destacam o Rei Momo e seu grupo de cortesões acompanhando de um séquito de 5 mil crianças, 20 carros alegóricos e 800 máscaras gigantescas representando personagens conhecidos da cidade. No último dia de carnaval acontece o cortejo de incinerações. As máscaras e bonecos são queimados na praia, e há um espetáculo de fogos de artifício, marcando o fim das festividades. Na avenida Atlântica de Nice, na Promenade de Anglais, são organizadas as famosas batalhas das flores, compostas pelo cortejo de inúmeros carros alegóricos, cheios de bonitas garotas, entre elas a rainha do carnaval, que passam jogando milhares de buquês de flores para o público. Cerca de 10 toneladas de flores são distribuídas pela prefeitura. O carnaval de Nice tem um calendário dilatado, de 15 de fevereiro a 4 de março.

Em fevereiro, data previamente marcada, ocorre o carnaval dos carnavais, uma reunião de representantes de Blocos e conjuntos folclóricos de todo lugar do mundo onde existe carnaval. Esse evento é transmitido pela Eurovisão.

O carnaval de Nice também atualmente (1997) se encontra enfraquecido.

Binche

Várias cidades da Bélgica, como Eben-Emael, Stavelot, Malmedy e Fosse-la-Ville, comemoram alegremente o carnaval com bailes e desfiles mas nenhuma se compara a Binche, uma cidade de 10 mil habitantes bem perto de Bruxelas (a 50 Km).

Binche fundada há 8 séculos tem uma grande importância histórica devido `a sua posição estratégica. Inclusive sua tradicional fortaleza se transformou num atrativo turístico e seu carnaval numa festa prolongada por 7 semanas, com um pré-carnaval e o carnaval propriamente dito. Em Binche não existem hotéis, mas como as distâncias são curtas os visitantes e turistas se hospedam em cidades vizinhas como Moris, que fica somente a 16 quilômetros.

O pré-carnaval em 1990 se iniciou no dia 14 de janeiro, domingo, e teve prosseguimento dia 21 de janeiro, também domingo, quase apenas as baterias das 13 sociedades lá existentes deram uma demonstração, apresentando-se sem fantasias em suas sedes.

O carnaval propriamente dito começou no domingo, dia 25 de fevereiro, quando as 13 sociedades saíram às ruas, às 10 horas da manhã, para exibirem as fantasias, conservadas até então sob sigilo.

Em Binche está localizado o Museu Internacional do Carnaval e da Máscara, à rua de L’Eglise, 71 - Telefone : 064/335741. O carnavalesco João Trinta fez um trabalho (Exposição) no referido museu.

Basiléia

Em Basiléia, cidade suíça que fica na fronteira da França com a Alemanha, cortada pelo Rio Reno e que possui 200 mil habitantes, faz o maior carnaval do país, o Fasnacht que acontece nas segunda e terça feira seguintes à quarta-feira de cinzas. A festa começa na madrugada de segunda-feira com bandas, instrumentos de percussão e flautas. Todos se fantasiam, mascarados e com pequenas luzes nas cabeças, tocando músicas inusitadas.
Os grupos formam as bandas e desfilam a tarde, com temas escolhidos anteriormente, e satirizando um fato conhecido de todos. Os cortejos são compostos por pessoas fantasiadas, alegorias e máscaras gigantescas. Durante os desfiles são distribuídos folhetos com textos em prosa e verso, que explicam os objetivos do grupo. Nas noites festivas ha também encenações feitas por pequenos grupos os schnitzelpangg que andam de bar em bar cantando e representando. Espécies de blocos de sujos, sem outro objetivo a não ser fazer barulho e brincar, saem desordenadamente pelas ruas estreita da cidade antiga na noite de terça-feira formando o “gassle” que só acaba às 4 h. da madrugada de quarta feira.
Quando ocorre o carnaval, é inverno. E a temperatura média na cidade é de 5 graus.

Bonn

Em Bonn, importante cidade alemã, acontece o chamado carnaval das mulheres, o weiberfastnacht, uma tradição que remota ao século XIX. Esse carnaval, único com essas características no mundo, teve início na pequena cidade de Benel, quando as lavadeiras criaram um movimento que pode ser considerado precursor da emancipação feminina : em certo dia do ano as mulheres tinham liberdade de fazer tudo. Em 1824, a sofisticação do movimento chegou a tal grau que foi criado o comitê dos foliões femininos, ao qual o homem ficava subjugado.

Outro acontecimento importante do carnaval de Bonn, e também da região da Renânia, é o “Rosenmontag”, um carnaval onde se organizam desfiles com pessoas fantasiadas com roupas militares. Máscaras escondem o rosto de todos, pois há uma crença que o diabo, nessa época, fica solto por toda região, onde fica a “floresta negra”, cada grupo cultiva uma forma de tradição, por isso as fantasias variam muito.

Nova Orleans

Em Nova Orleans acontece o maior carnaval norte-americano, o Mardi Grass. O Mardi Grass que significa terça gorda, se iniciou quando negociantes fundaram o clube “The Mystick Krewe of Comus”, em 1857, e fizeram um desfile com monumentais carros alegóricos, tendo à frente negros com archotes (na terça-feira de carnaval). Na primeira década deste século formou-se o “Krewe of Rex” que desfilou para o Grão-Duque da Rússia.
Durante o Mardi Grass, mais de 50 agremiações desfilam pelas ruas da cidade, os bares ficam o tempo todo abertos, e são tomados por multidões com os mais exóticos trajes, que bebem e saem as ruas fazendo a maior algazarra nas passagens das agremiações. O ponto de encontro do carnaval negro é a Av. Clair Borne, onde se espalham as mais exóticas tribos, com elaboradas e esquisitas fantasia. O monarca da festa é o Rei ZULÚ. Ha uma mistura de ritmos de origem negra.

Os locais dos desfiles são amplamente divulgados pelos jornais. O mais importante se estende da ST. Charles Avnue à Canal Street. Uma das agremiações mais conhecidas é a Bacchus que se apresenta com gigantescos e originais carros alegóricos. Outra agremiação bastante conhecida é a Endymion.

Outros Carnavais no Mundo

Tirana, Albania; Corrientes, Argentina; Aruba; Barbados; Cuba; Oruro, Colombia; Malta; Macedonia; México; Torres Vedras, Portugal; Romenia; Eslovenia: Suécia; Iugoslávia; Uruguai; Grécia; Hambugen, Cologen, Alemanha; etc.

Fonte:
Livro - Carnaval
Dr.Hiram Aráujo

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