12 preconceitos e falácias cognitivas que impedem a racionalidade absoluta


12 preconceitos e falácias cognitivas que impedem a racionalidade absolutaA razão humana não é tão perfeita como quase sempre é considerada e, pelo contrário, possui fissuras estruturais pelas quais se junta ao erro, ao equívoco e a falsidade; ou talvez não seja assim e isto que consideramos desdenhável seja só outra expressão de nosso deficiente pensamento. O razoamento é talvez o melhor mecanismo para exemplificar como a natureza e a cultura se encontram inextricavelmente unidas, como uma e outra se nutrem entre si formando uma espécie de simbiose onde uma não pode existir sem a outra.


12 preconceitos e falácias cognitivas que impedem a racionalidade absoluta
Conquanto, por um lado, o pensamento racional foi um dos mecanismos decisivos no processo de sobrevivência, sua posterior sofisticação determinou uma maneira de pensar muito assinalada, uma forma do raciocínio que é a única que conhecemos, mas não a única que adivinhamos, um paradoxo que nos faz imaginar o que poderia ser sem defini-lo cabalmente.
Nietzsche, Foucault e outros filósofos mostraram como o pensamento racional tem formas muito específicas, que não existe um pensamento padrão, apesar de que isto possa ser expressado unicamente desde esta maneira de pensar.
Talvez por isso a lista que apresentamos a seguir tenha um duplo sentido. Por uma parte, sim, reunir esses vícios e armadilhas da razão que, como diz o título, nos impedem de sermos totalmente racionais: falácias, preconceitos e tendências que nos inclinam para um "lado negro" onde as coisas parecem certas e verdadeiras, mas só por uma sutil deficiência na argumentação.
Por outro lado, no entanto, também gostaríamos de acabar com essa carga negativa que por séculos é imputada a estas expressões do pensamento racional. Trata-se, em suma, de um exercício de autorreflexão sobre a razão humana, nossa razão, por tanto tempo tida em um altar propiciatório, mas que não é, de modo algum, a única possível nem muito menos válida.
  • Falácia de confirmação:
    Aceitemos: todos gostamos de discutir, mas só com quem sabemos que, secreta ou abertamente, estão de acordo conosco. Buscamos nossos pares: em capacidade intelectual, em acervo cultural, em posições políticas, em credos e nem sempre achamos muito agradável sair desta zona de conforto. A este comportamento psicológico Leon Festinger denominou "dissonância cognitiva" e, em termos gerais, tem como consequência um reforço de nossa visão de mundo, a qual se vê pouco desafiada.
  • Falácia de grupo:
    Parecida à anterior, esta falácia remonta às épocas tribais de nossa espécie e inclusive as características ainda mais elementares como o efeito da oxitocina sobre o comportamento. Este neurotransmissor impulsiona-nos a apoiar àqueles que fazem parte de nosso grupo (nossa tribo) e, pelo contrário, recusar os que não fazem parte deste.
  • Falácia do jogador:
    Como os jogadores consumados, a repetição de um acontecimento nos faz pensar que por trás desta existe um sentido, um padrão que prediz o acontecimento seguinte. Lançamos uma moeda em quatro ocasiões e a partir dos resultados achamos que podemos predizer o resultado da quinta -contradizendo o cálculo irrefutável de que as probabilidades seguem sendo 50/50-. Trata-se também de uma prática mental parecida à que Poe relata no início da "Carta roubada", na parte onde fala do menino que sempre ganhava no jogo de "Par ou impar?".
  • Racionalização pós-compra:
    Um auto-engano sumamente contemporâneo: esse no qual nos convencemos, por todas as vias possíveis, de que realmente precisamos ou precisaremos eventualmente de um produto caro e no fundo totalmente inútil que acabamos de adquirir. Visto mais amplamente, é uma maneira de nos sentirmos melhor ante a que sabemos que uma decisão se une com transtornos como a Síndrome de Estocolmo.
  • Probabilidade de negligência:
    Neste espelhismo do pensamento, nosso cérebro não nos permite entender que, estatisticamente, é menos provável morrer em um acidente automobilístico ou em um ato terrorista que, digamos, caindo da escada ou por um envenenamento acidental. A probabilidade de negligência refere-se, segundo a psicóloga social Cass Sunstein, ao fato de que exageramos os riscos de atividades relativamente prejudiciais ao mesmo tempo em que sobredimensionamos as mais perigosas.
  • Tendência à observação seletiva:
    Há dias em que nos concentramos mais que outros em determinadas circunstâncias e, erroneamente, tendemos a achar que estas não aconteciam com a frequência com que estão acontecendo nesse momento. Adquirimos uma roupa -um par de sapatos, uma camiseta, etc.- e começamos a ver aquilo por todos lados. Uma mulher fica grávida e de repente adverte todas as de seu gênero que em seus cenários cotidiano também estão grávidas. A maioria das vezes, no entanto, isto não é uma casualidade fortuita sem maior transcendência.
  • Falácia do status quo:
    O pensamento conservador por excelência, aquele em que realmente as coisas estão bem como estão, em que este é "o melhor dos mundos possíveis", uma regularidade cognitiva que se expressa em decisões que optam por evadir a mudança e manter as rotinas que nos dão segurança em nossa existência diária.
  • Inclinação à negatividade:
    Por um curioso mecanismo a um tempo mental e social, é sumamente comum que o aspecto negativo das coisas seja mais atraente que o positivo. Uma má notícia, por exemplo, é bem mais conhecida que uma boa, em qualquer nível de socialização. Ao que parece não se trata de um assunto que se explique unicamente pela morbosidade (esta é só uma conseqüência paralela), senão que culturalmente aprendemos a achar que as más notícias são, em essência, bem mais importantes ou profundas, segundo alguns uma reminiscência evolutiva dos tempos em que saber se mover entre a negatividade do mundo significava maiores probabilidades de se adaptar e sobreviver.
  • Efeito Bandwagon:
    O indivíduo modifica notavelmente seu comportamento e sua maneira de pensar quando faz parte de uma multidão, quando esta o abraça e o converte em um de seus anônimos integrantes. O efeito bandwagon (que tomou seu nome do vagão que transportava à banda musical no trem do circo) dita que a probabilidade de que uma pessoa adote uma crença ou conduta se encontra em proporção direta de quantos outros já a tenham, isto quer dizer que existe uma tendência psicológica a seguir ou imitar as ações ou ideias de outros porque preferimos nos conformar com o pré-existente ou porque é impossível não derivar nova informação a partir do que os demais pensam e fazem.
  • Falácia de projeção:
    Vivemos sempre bem conosco mesmos, com o que somos e o que pensamos. Somente com um pouquinho de esforço é possível que passemos a perceber um pouco fora de nossos próprios limites e vislumbrar um reflexo da alteridade. Daí que seja muito comum supor que os demais pensam quase da mesma maneira que nós e, em conseqüência, que estarão de acordo com aquilo que defendemos e recusamos.
  • Tendência do momento atual:
    Esta tendência também poderia ser denominada como hedonismo, e inclusive parece ter raízes clássicas, filosóficas e poéticas. Segundo alguns estudos, o ser humano tende a deixar o sofrimento para depois e prefere o prazer do agora, em outras palavras, dificilmente nos imaginamos em situações futuras que poderiam alterar nossos comportamentos e expectativas atuais. Assim, por um exemplo simples, uma pesquisa de 1998 mostrou que quando se trata de escolher os alimentos da próxima semana, 7 em cada 10 pessoas optam por uma fruta, mas se a escolha se refere ao dia atual, também 7 em cada 10 se inclinam por um chocolate.
  • Efeito de ancoragem:
    Como se jogasse uma âncora para se estabilizar antes de um processo racional, nossa mente tende a fixar uma série determinada de fatores, circunstâncias, crenças, etc., para estabelecer comparações e hierarquizações, as quais são inamovíveis e inegociáveis. Quando vamos a uma loja, por exemplo, e praticamente o único elemento de comparação entre produtos similares é o preço, e todo o demais repentinamente desaparece ante nossos olhos e nosso entendimento.
A propósito de tudo isto compartilhamos um link para ler a dialética erística ou a "Como vencer um debate sem precisar ter razão", exposta em 38 estratagemas, de Arthur Schopenhauer.
Fonte: io9.



(via Mr. Reader)


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