Então, na escuridão de sua mente, teve a impressão de ouvir Dernhelm
falando: mas agora sua voz parecia estranha, fazendo-o lembrar de alguma
outra voz que já ouvira antes.
– Vá embora, criatura asquerosa, senhor das aves carniceiras! Deixe os
mortos em paz!
Uma voz fria respondeu:
– Não te intrometas entre o nazgûl e sua presa!
Ou ele te matará na tua hora. Vai levar-te embora para as casas de
lamentação, além de toda a escuridão, onde tua carne será devorada, e tua
mente murcha será desnudada diante do Olho Sem Pálpebra.
Uma espada tiniu ao ser sacada.
– Faça o que quiser; vou impedi-lo, se conseguir.
– Impedir-me? Tu és tolo. Nenhum homem mortal pode me impedir!
Então Merry ouviu o mais estranho de todos os sons daquela hora.
Parecia que Dernhelm estava rindo, e sua voz cristalina era como aço.
– Mas não sou um homem mortal! Você está olhando para uma mulher. Sou Éowyn,
filha de Éomund. Você está se interpondo entre mim e meu senhor, que
também é meu parente. Suma daqui, se não for imortal! Pois seja vivo ou
morto-vivo obscuro, vou golpeá-lo se tocar nele.
A criatura alada gritou contra ela, mas o Espectro do Anel não respondeu
e ficou em silêncio, como se tomado por uma dúvida repentina. Por um
momento, o coração de Merry foi presa de puro assombro. Abriu os olhos e
viu que o negrume subira acima deles. Ali, a alguns passos dele, estava o
grande animal, e tudo parecia escuro ao seu redor, e sobre ele assomava o
Senhor dos Nazgûl como uma sombra de desespero. Um pouco à esquerda
estava aquela que ele chamara de Dernhelm. Mas o elmo de seu segredo lhe
caíra da cabeça, e os cabelos claros, libertos de seus laços, reluziam num ouro
pálido sobre os ombros. Os olhos cinzentos como o mar eram duros e cruéis,
e apesar disso havia lágrimas em suas faces. Segurava uma espada na mão, e
erguia o escudo contra o horror dos olhos do inimigo.
Era Éowyn, e também Dernhelm. Pois na mente de Merry de repente
surgiu, como um clarão, a imagem do rosto que ele vira na cavalgada,
partindo do Templo da Colina: o rosto de alguém que vai em busca da morte,
sem qualquer esperança. Seu coração encheu-se de pena, misturada a uma
grande surpresa, e de repente a coragem de sua raça, de inflamação lenta,
despertou. Cerrou a mão. Ela não deveria morrer, tão bela, tão desesperada!
Pelo menos não morreria sozinha, sem ajuda.
O rosto do inimigo não estava voltado para ele, mas mesmo assim o
hobbit mal ousava se mexer, aterrorizado com a possibilidade de que aqueles
olhos mortais recaíssem sobre ele. Devagar, devagar, começou a se arrastar
para o lado; mas o Capitão Negro, cheio de dúvidas e de intenções malignas
em relação à mulher diante dele, não deu ao hobbit mais atenção do que daria
a um verme na lama.
De repente o grande animal bateu suas asas hediondas, e o vento
produzido por elas era nojento. Mais uma vez subiu aos ares, e depois se
arremessou rápido contra Éowyn, guinchando, atacando com bico e garras.
Mesmo assim ela não recuou: donzela dos rohirrim, filha de reis, esbelta e
ao mesmo tempo como uma lâmina de aço, bela mas terrível. Desferiu um
golpe rápido, habilidoso e fatal. Cortou fora o pescoço esticado, e a cabeça
decepada caiu como uma pedra. Pulou para trás no momento em que a
enorme figura caiu destruída, as vastas asas abertas, inerte no chão; e com sua
queda a sombra desapareceu. Uma luminosidade caiu ao redor de Éowyn, e
seus cabelos reluziram aos raios do sol que nascia.
Da ruína ergueu-se o Cavaleiro Negro, alto e ameaçador, assomando
sobre ela. Com um grito de ódio que feria os ouvidos como veneno, desferiu
um golpe com sua maça. Partiu-se em pedaços o escudo de Éowyn, e seu
braço ficou quebrado; ela cambaleou e caiu de joelhos. Ele pairava sobre ela
como uma nuvem, os olhos faiscando; ergueu sua maça para matar.
Mas de repente ele também cambaleou, com um grito lancinante de dor, e
seu golpe passou longe, atingindo o chão. A espada de Merry o ferira por
trás, rasgando de cima a baixo o manto negro e, passando por baixo da
couraça metálica, atravessara o tendão atrás de seu forte joelho.
– Éowyn! Éowyn! – gritava Merry. Então cambaleando, esforçando-se
para se levantar, com suas últimas forças, ela enfiou a espada entre coroa e
manto, quando os grandes ombros se curvaram diante dela. A espada se
estilhaçou faiscando em mil fragmentos. A coroa rolou para o chão
estrepitosamente. Éowyn caiu para a frente, sobre o corpo de seu inimigo.
Mas eis que o manto e a couraça estavam vazios. Jaziam agora disformes no
chão, rasgados e amontoados; e um grito subiu estremecendo o ar, e foi
sumindo num gemido chiado, passando com o vento, feito voz fraca e sem
corpo, que morreu e foi engolida, e nunca mais foi ouvida naquela era deste mundo.
O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei.
J.R.R. Tolkien



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