Opinião: Aaron Swartz se foi, mas suas causas permanecem vivas

21/01/2013 - 03h30

RONALDO LEMOS
COLUNISTA DA FOLHA

Conheci Aaron Swartz em uma reunião acadêmica na Universidade Harvard, quando ele tinha 15 anos. Achei que fosse o filho de algum palestrante. Logo vi que ele estava ali por suas ideias.

Falava com fluência sobre política, programação e direitos autorais. Temas que permearam sua vida, encerrada tragicamente no último dia 11, aos 26 anos, quando ele se enforcou em seu apartamento em Nova York.

Noah Berger/Reuters
Aaron Swartz em San Francisco, em 2008; o ativista suicidou-se em 11 de janeiro, com 26 anos
Aaron Swartz em San Francisco, em 2008; o ativista suicidou-se em 11 de janeiro, com 26 anos

Em 2009 Aaron veio ao Brasil. Foi a Belém e, no Rio, ficou hospedado na minha casa. Como muitos da sua geração, ficava conectado o tempo todo.

Aos 14 anos, ele atuou no desenvolvimento do padrão RSS, que gera "feeds" em redes sociais e sites de notícia. Pouco depois ganhou dinheiro com a rede. Criou uma empresa comprada pelo Reddit, influente site colaborativo, hoje do grupo Condé Nast.

Como outros gênios precoces, perambulava pelo circuito acadêmico dos EUA, mas não fazia parte dele formalmente. Não fez universidade. Quando esteve no Brasil, ele me concedeu uma entrevista. Perguntei como uma criança podia ter feito tanta coisa, e se ele se via diferente de outros garotos.

Ele respondeu: "Não acho que eu seja mais inteligente do que qualquer outro garoto. Com certeza não trabalho mais duro do que ninguém. Só trabalho em coisas que acho divertidas".

"O que eu sempre tive foi curiosidade. Toda criança tem uma curiosidade enorme. A questão é que a escola absorve essa curiosidade, em vez de deixar as crianças explorarem por conta própria. Quem tenta fazer algo diferente acaba tendo problemas. A curiosidade de poucas pessoas sobrevive a isso."

O blog de Aaron é testemunha dessa curiosidade. Há artigos sobre política, história do pensamento, resenhas de livros, textos sobre tecnologia, cinema e humor. Aaron foi ativista em três causas importantes. Uma é a reforma do sistema político americano -via a tecnologia como chance de gerar mais transparência e diminuir a corrupção. Trabalhou com o professor Lawrence Lessig no Centro de Ética em Harvard sobre isso.

O SUPOSTO "CRIME"

Defendia também ampliar o acesso a informações governamentais e científicas. Por isso, foi um dia até o MIT, o Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e lá deixou seu computador baixando mais de 4 milhões de documentos do sistema de arquivamento de jornais acadêmicos JSTOR.

Esse foi seu suposto "crime". Aaron nunca colocou os jornais acadêmicos baixados na internet. O próprio JSTOR não o processou, dizendo que ninguém sofreu qualquer prejuízo. No entanto, a procuradora dos EUA Carmen Ortiz decidiu processar Aaron até as últimas consequências.

Pediu que ele fosse condenado a mais de 30 anos de prisão. Rejeitou todas as defesas. Jogou o peso persecutório do governo dos EUA em cima de um garoto que se locomovia de bicicleta.

Isso exauriu seus recursos financeiros e suas forças. Como patriota que era, ser processado pelo mesmo sistema que ele buscava aperfeiçoar compõe a tragédia.

A procuradora Ortiz está agora sob pressão para responder por tamanha desproporcionalidade. Ela tinha interesse em se candidatar ao governo do Estado de Massachusetts, e os holofotes do caso a ajudariam.

Um senador dos EUA propôs a "Lei Aaron Swartz", que muda os crimes digitais dos EUA, dificultando que uma tragédia similar se repita.

As causas de Aaron Swartz permanecem vivas. Sua namorada e família trabalham para preservar sua memória.

Quem o conheceu sente-se responsável por preservar seu legado. Que sua história seja lembrada por muitos jovens do futuro.

AARON SWARTZ
(1986-2013)

NASCIMENTO
Em Chicago, 8 de novembro de 1986, nasceu Aaron Swartz.

RSS
Com 14 anos, Swartz ajudou a desenvolver uma versão do RSS, que facilita a distribuição de conteúdo de sites por meio de "feeds". Depois, participou do grupo Creative Commons.

REDDIT
Em 2005, a start-up Infogami, de Swartz, foi adquirida por outra, o Reddit. Após a compra do site pela editora Condé Nast, Swartz não se adaptou à nova vida profissional e foi demitido.

ACESSO GRATUITO
Swartz obteve dados públicos da Biblioteca do Congresso dos EUA, que cobrava pelo acesso a eles, e publicou-os no Open Library, de acesso gratuito. Tentou repetir a ação com o sistema Pacer, que cobra pelo acesso a documentos legais. Swartz baixou e publicou cerca de 20% do banco de dados.

GRUPO ATIVISTA
Swartz fundou o Demand Progress, que lançou uma campanha contra os projetos de lei antipirataria norte-americanos Sopa e Pipa.

CASO JSTOR
Em 2011, Swartz foi acusado de usar a rede do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) para baixar 4,8 milhões de documentos do JSTOR, um repositório pago de artigos acadêmicos, com a intenção de distribuí-los gratuitamente. O JSTOR e o MIT retiraram as acusações, mas o Ministério Público dos EUA prosseguiu com o caso. Swartz poderia ser condenado a mais de 30 anos de prisão e a US$ 1 milhão em multas.

SUICÍDIO
Swartz morreu em 11 de janeiro de 2013, ao enforcar-se em seu apartamento no Brooklyn, em Nova York.





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